20 anos de partilha e aprendizado

Meus queridos amigos, leitores do nosso jornal espírita O Imortal.

No mês de fevereiro deste ano, completei 20 anos ininterruptos escrevendo as nossas queridas crônicas de além-mar. É para mim uma alegria indefinível olhar para trás e perceber a quantidade de reflexões, experiências e aprendizados compartilhados ao longo dessas duas décadas. ¹

A comunicação, quando feita com leveza e propósito, torna-se um instrumento precioso de união. Trazer informações que edifiquem, que inspirem e que conectem corações, especialmente a partir do exterior — onde atualmente resido, em Londres —, tem sido uma missão que abraço com profunda gratidão.

Acabo de retornar, há apenas três dias, de uma viagem de 27 dias pela Áustria e pela Alemanha. Foi uma jornada rica em experiências, não apenas culturais, mas, sobretudo, espirituais e humanas. Participei de diversos eventos, palestras e conferências em universidades como Erlangen, próximo de Nürnberg, na Alemanha, e Innsbruck, na Áustria, além de outras atividades voltadas à moral e à filosofia — temas tão essenciais para o nosso cotidiano.

Um aspecto particularmente marcante dessa jornada foi o congresso de dois dias realizado na Universidade de Erlangen, no qual, no primeiro dia, o tema central foi o sofrimento — abordado sob as perspectivas judaica, islâmica e cristã — e, no segundo, a felicidade, novamente refletida à luz dessas mesmas tradições. Acadêmicos e estudiosos de diversos países contribuíram com conferências profundas, sensíveis e extremamente enriquecedoras.

O que mais me tocou, entretanto, foi perceber que, embora não houvesse qualquer menção direta ao Espiritismo, os conteúdos apresentados dialogavam intensamente com princípios que nos são tão familiares, revelando que as verdades espirituais transcendem nomes e se manifestam, de forma universal, nas mais diversas culturas e caminhos religiosos. Ficou claro, mais uma vez, que as grandes verdades espirituais se manifestam em diferentes culturas e tradições — ainda que sob nomes distintos.

Nesses encontros, tive a oportunidade de ouvir profissionais acadêmicos, doutores e estudiosos provenientes dos Emirados Árabes, Estados Unidos, Canadá, Austrália e também do Brasil. Entre eles, destacaram-se reflexões profundas sobre a vida, o sofrimento e a busca pela felicidade.

Na Universidade de Innsbruck, de tradição jesuíta, além da palestra, pudemos visitar museus, obras sacras e conhecer mais profundamente a história da região, incluindo a Bavária, na Alemanha. Visitei também diversas catedrais e igrejas, cada uma com sua arquitetura, sua época e sua razão de existir.

Entre essas experiências, marcou-me especialmente a visita à igreja de Wies, na pequena cidade de Steingaden, construída no topo de uma colina, com uma vista deslumbrante para os Alpes da Baviera alemã. Trata-se de um local de peregrinação, cuja origem remonta ao testemunho de uma médium que relatou fenômenos envolvendo uma imagem de Jesus — lágrimas que vertiam da madeira e sinais que tocaram profundamente a comunidade local, motivando a construção daquele santuário. Até hoje, peregrinos do mundo inteiro visitam esse lugar, movidos pela fé e pela esperança.

Toda essa vivência levou-me a uma reflexão muito importante: como semear os estudos espíritas fora do meio espírita? Confesso aos meus queridos leitores que essa tarefa não é simples. No entanto, algo profundamente tocante se revelou ao longo dessa jornada.

Percebi, com emoção, que, quando um muçulmano fala sobre felicidade ou sofrimento, quando um judeu reflete sobre a vida, ou quando estudiosos de diferentes tradições abordam questões existenciais, há uma essência comum. São pessoas sinceras, dedicadas ao bem, que, mesmo sem conhecerem o Espiritismo, já vivenciam muitos de seus postulados.

Em uma das palestras a que assisti na Universidade de Erlangen, por exemplo, um médico — dirigente de um hospital em seu país — abordou temas como eutanásia, experiências de quase-morte e o cuidado com aqueles que estão na fase de transição. Suas palavras revelavam uma compreensão profunda da vida espiritual, ainda que sem utilizar a terminologia espírita.

Foi então que compreendi com mais clareza: não precisamos impor nada a ninguém. O Espiritismo, em muitos aspectos, já está presente — ainda que sob outras formas e nomes. Cabe a nós respeitar, integrar e colaborar, reconhecendo o bem onde quer que ele esteja.

Em breve, terei a alegria de participar de novos encontros: em junho, em uma universidade em Seul, na Coreia do Sul, e, em maio, novamente em Atenas, pela terceira vez, junto ao meio espiritualista. Cada uma dessas oportunidades representa não apenas a possibilidade de compartilhar, mas, sobretudo, de aprender.

Viver fora do Brasil tem sido, para mim, uma escola constante. Aprendo diariamente a respeitar culturas, a ouvir com humildade e a contribuir sem imposições, enriquecendo, antes de tudo, a mim mesma.

Assim, meus queridos irmãos e irmãs, espero que estas palavras possam trazer algum benefício aos seus corações. Agradeço, com carinho, cada retorno, cada mensagem, cada sugestão ao longo desses 20 anos de parceria com o jornal O Imortal.

Deixo a todos vocês a minha gratidão sincera e o meu afeto fraterno.

Que Deus nos abençoe, onde quer que estejamos — na Europa, na Ásia ou em terras de além-mar.
 

¹ A edição de fevereiro de 2006, em que ocorreu a estreia da seção Crônicas de Além-Mar, pode ser lida clicando-se neste link: https://www.oconsolador.com.br/linkfixo/oimortal/2006/Fevereiro_2006.pdf


Elsa Rossi, escritora espírita radicada no Reino Unido, é presidente do Allan Kardec Study Group-Centre for Spiritist Teachings e da União das Sociedades Espíritas Britânicas – BUSS.



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