Caminhando com amor

“Conserta-te sem demora com o teu adversário, enquanto estás a caminho com ele, para que não suceda que ele te entregue ao juiz, e que o juiz te entregue ao seu ministro, e sejas mandado para a cadeia. Em verdade te digo que não sairás de lá enquanto não pagares o último ceitil.” – Jesus (Mateus, cap. V:25-26)

O amor é a nossa destinação, e para ele fomos criados. A Suprema Inteligência, causa primária de todas as coisas, criadora da beleza, do amor e das virtudes, deu-nos a vida para que nela aprendêssemos os mais belos sentimentos. O amor é de essência divina, conforme nos elucidam os espíritos elevados.

Na teoria, sabemos bem sobre o perdão, mas chegamos à conclusão de que essa é uma das mais difíceis conquistas do ser humano. Tanto tempo após Jesus, e os homens ainda se digladiam e caminham na ignorância do amor e do perdão.

Há poucos dias, conversando com uma senhora cinquentenária, ela nos disse que estava morrendo de saudades de uma netinha de um ano e meio de idade. Perguntamos se a criança morava em outra cidade.

— Não! Mora aqui mesmo, em nossa cidade — disse ela.

— Por que a senhora não vai visitá-la, então? — perguntamos.

— Ah! — disse-nos ela. — A senhora não conhece a minha nora. Acho que é a pessoa mais difícil que já conheci. “Emburrou” comigo e me tirou até dos contatos do WhatsApp.

— Por que a senhora não vai até lá, pede desculpas, mesmo sem culpa, em nome da paz, reconcilia-se com ela e, assim, terá a possibilidade de estar com sua netinha? — perguntamos.

— Ah, não! Isso eu não faço! Não dá. Ela é difícil demais. Toda semana ela manda meu filho embora de casa. Aí ele vai para a minha casa, fica lá uma semana, ela telefona dizendo que a menina está com saudades. Ele volta. Na semana seguinte, ela briga e o manda embora de novo. É assim sempre.

Tentamos convencê-la a procurar a reconciliação, mas ela permaneceu irredutível. Isso nos mostra em que grau de elevação moral ainda nos encontramos no planeta Terra. Muitos são assim. Vencer o orgulho não é fácil. Há muitos simples e humildes de coração, mas o orgulho ainda provoca muitas inimizades.

A história dela é muito simples. Há histórias terríveis de ódio, ainda mesmo sob a orientação do nosso amado Jesus. Pessoas que preferem as injúrias e a violência à bondade e ao amor.

Conhecendo a imortalidade da alma, melhor é fazermos as pazes enquanto estamos a caminho. Melhor ainda: não precisarmos fazer as pazes, amarmos a todos e sermos fraternos com todos.

Um dia veremos isso. Não mais querelas, não mais guerras, não mais ódio. Os sentimentos inferiores ficarão para trás, e o mundo será feliz.

Diz-nos O Evangelho segundo o Espiritismo que o sacrifício mais agradável a Deus é o dos próprios ressentimentos; que, antes de se pedir perdão ao Senhor, é preciso perdoar aos outros; e que, se algum mal tivermos feito contra um irmão, será preciso repará-lo.

Precisamos purificar nosso coração e retirar de nós os maus pensamentos.

Na questão 661 de O Livro dos Espíritos, Allan Kardec pergunta se se pode utilmente pedir a Deus que nos perdoe nossas faltas, ao que os espíritos respondem que Deus sabe discernir o bem e o mal: a prece não oculta as faltas. Aquele que pede a Deus o perdão de suas faltas não o obtém senão mudando de conduta. As boas ações são as melhores preces, porque os atos valem mais do que as palavras.

Hoje há muitos trabalhos de psicólogos no YouTube que ensinam lições de relaxamento e de perdão.

Diz Robin Casarjian, psicóloga americana, em seu livro O Livro do Perdão, que, para perdoar, é preciso reconhecer que, se a pessoa está se comportando como um “bobalhão” ou de modo insensível, então estão implícitos em seu comportamento constrição e medo. Diz ela que, mesmo que isso não seja óbvio para o olhar intransigente, sob os comportamentos e atitudes dessa pessoa há um pedido de respeito, reconhecimento e amor. É preciso, comenta ela, muita percepção para notar essa dinâmica, pois estamos condicionados a ver a outra pessoa como estúpida ou errada, em vez de oprimida e assustada.

Perdoar, diz ela, é uma atitude que implica estar disposto a aceitar ser responsável pelas próprias percepções, compreendendo que elas são uma escolha.

Perdoar, continua ela, ensina-nos que podemos discordar de alguém sem negar nosso amor; leva-nos além dos medos e dos mecanismos de sobrevivência a que fomos condicionados, até uma certa ousadia de visão, que nos permite adentrar um novo reino de escolha e liberdade, onde podemos descansar das nossas batalhas. Perdoar leva-nos ao lugar onde a paz não é uma estranha e nos capacita a conhecer nossa verdadeira força.

Joanna de Ângelis, através da psicografia de Divaldo Franco, comenta que, para conseguirmos o perdão, é mister que nos adestremos mediante critérios antecipados e exercícios contínuos. Precisamos ler uma página mensageira de otimismo, capaz de produzir júbilo no mundo íntimo. No livro Celeiro de Bênçãos, ela pede que reprimamos observações menos dignas, apreciações fúteis e referências deprimentes e maliciosas. Devemos estimular a conversação edificante e, quando isso não for possível, silenciar.

Precisamos retirar do petardo que nos atingiu as lições que nos foram oferecidas; assim, o ofensor transforma-se em amigo.

Melhor não nos sentirmos ofendidos e buscar compaixão para com aquele que tenta ofender, lembrando Jesus, o Divino Senhor: “Pai, perdoai-os. Não sabem o que fazem!”

Na atual conjuntura da Terra, em que vemos tanta violência e agressão, quando o perdão parece ser uma dificuldade, como nos comentou a senhora que citamos, busquemos amar mais. Esse é o caminho: amar! Perdoar sempre! Melhor ainda: não precisar perdoar, por não se sentir ofendido. Exercitar o amor.



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