Viriato Correia
Viriato Correia (Manuel Viriato Correia Baima do Lago Filho), jornalista, contista, romancista, teatrólogo e autor de crônicas históricas e livros infantojuvenis, nasceu em 23 de janeiro de 1884, em Pirapemas, MA. Filho de Manuel Viriato Correia Baima e de Raimunda Silva Baima, ainda criança deixou a cidade natal para fazer cursos primário e secundário em São Luís do Maranhão.
Primeiros anos
Começou a escrever aos 16 anos os seus primeiros contos e poesias. Concluídos os preparatórios, mudou-se para Recife, cuja Faculdade de Direito frequentou por três anos. Seus planos incluíam, porém, a radicação no Rio de Janeiro, e sob o pretexto de terminar o curso jurídico na metrópole, veio juntar-se à geração boêmia que marcou a intelectualidade brasileira no começo do século.
Em 1903 saiu no Maranhão o seu primeiro livro de contos, Minaretes, marcando o aparecimento de Viriato Correia como escritor. O livro não agradou a João Ribeiro, que descarregou contra ele toda a sua crítica. Considerou afetado o título, proveniente do árabe, porque uma mesquita não tem nada em comum com contos sertanejos, que foram o tema da obra.
Carreira jornalística
Por interferência de Medeiros e Albuquerque, de quem se tornara amigo, Viriato Correia obteve colocação na Gazeta de Notícias, iniciando carreira jornalística que se estenderia por longos anos e no exercício da qual seria colunista do Correio da Manhã, do Jornal do Brasil e da Folha do Dia, além de fundador do Fafazinho e de A Rua. Colaborou também em Careta, Ilustração Brasileira, Cosmos, A Noite Ilustrada, Para Todos, O Malho, Tico-Tico.
No ambiente das redações, em convívio com intelectuais expressivos como Alcindo Guanabara e João do Rio, encontraria incentivo para a expansão dos pendores literários já revelados. Muitas das suas obras de ficção consagradas em livro foram divulgadas pela primeira vez em páginas de periódicos. Assim ocorreu com os Contos do sertão, que, estampados primitivamente na Gazeta de Notícias, foram reunidos em volume e publicados em 1912, redimindo Viriato Correia do insucesso de Minaretes. Outros livros de ficção viriam depois confirmar o contista seguro, pelo justo equilíbrio entre o ritmo empolgante e a pausa tranquilizadora das descrições. Inspirava-se no cotidiano burguês ou campestre, em cenários exclusivamente brasileiros.
Literatura e teatro
Obteve notoriedade no campo da narrativa histórica, ombreando-se com Paulo Setúbal, que também se dedicou ao gênero. Enquanto o escritor paulista deu preferência ao romance, Viriato Correia optou pelas historietas e crônicas, com o intuito visível de atingir o leitor comum. Escreveu no gênero mais de uma dezena de títulos, entre os quais se destacam Histórias da nossa História (1921), Brasil dos meus avós (1927) e Alcovas da História (1934). Com o objetivo de levar a História também ao público infantil, recorreu à figura do afável ancião que reunia a garotada em sua chácara para a fixação de ensinamentos escolares. As sugestivas “lições do vovô” encontram-se em livros como História do Brasil para crianças (1934) e As belas histórias da História do Brasil (1948). Deixou ainda muitas obras de ficção infantil, entre elas o romance Cazuza (1938), um dos clássicos da nossa literatura infantil, em que descreve cenas de sua meninice.
O meio teatral, que frequentou como crítico de jornal e mais tarde como professor de história do teatro, propiciou a Viriato Correia amplo domínio das técnicas dramáticas, transformando-o num dos mais festejados e fecundos autores teatrais em sua época. Escreveu perto de trinta peças, entre dramas e comédias, que focalizam ambientes sertanejos e urbanos, vinculando-o à tradição do teatro de costumes que vem de Martins Pena e França Júnior.
Carreira política e ABL
Viriato Correia foi eleito deputado estadual pelo Maranhão em 1911. Mais tarde, em 1927, iniciou o mandato de deputado federal, com reeleição em 1930. Porém, não pôde cumprir o terceiro mandato por questões políticas advindas da subida ao poder de Getúlio Vargas (1882-1954). Contrário ao novo governo e apoiador do presidente Washington Luís (1869-1957), acabou ficando preso durante algum tempo.
Fez parte a partir de 1938 da Academia Brasileira de Letras, para a qual foi eleito em 14 de julho de 1938 para ocupar a Cadeira 32, na sucessão de Ramiz Galvão. Na ABL foi recebido pelo Acadêmico Múcio Leão em 29 de outubro de 1938.
Viriato Correia e o Espiritismo
No livro Escritores e fantasmas, o autor Jorge Rizzini1 traz diversas histórias que levaram personagens da literatura mundial a se curvarem diante da constatação da existência dos espíritos e da vida após a morte. Uma delas conta o que aconteceu com Viriato Correia.
Denominando-se materialista e reconhecendo a dimensão do seu orgulho, Viriato conta uma das grandes experiências que lhe tocaram profundamente a alma e que foi motivada por um problema de saúde que o atormentava há anos, levando-o a viajar para tratamento, em busca das águas medicinais da Mantiqueira.
Em situação delicada, acamado por mais de uma semana onde se hospedara, quando arrisca a se levantar e a sair do quarto, o escritor se encontra com um casal, que lhe perguntou sobre sua saúde. Lembra que outros hóspedes já lhe haviam dado atenção. Mas nenhum havia tocado seu coração daquela maneira.
O escritor abre-se a falar sobre suas dores, sobre a sofrida viagem de trem que havia feito. Na conversa, o sr. Antônio Fonseca lembra a coincidência de estarem no mesmo trem e que, se soubesse, o teria auxiliado com passes, dizendo-se modestamente ser médium de cura.
Sem conhecimento sobre qualquer realidade a respeito do Espiritismo, Viriato avalia a situação e, meio na descrença, lembra no diálogo que quando cálculos renais passam, as dores só se acalmam com fortes injeções de morfina. “Mas o poder de Deus deve ser maior que o das injeções” – retorna o inquirido Fonseca, com uma convicção e uma tranquilidade de impressionar, calcada na fé cheia de doçura e consistência.
Fonseca vai-lhe contando sobre a consolação que recebera depois de conhecer e trabalhar pela doutrina, sobre os novos horizontes que se abririam para ele. E todas as noites ministrava passes em Viriato, que melhorava dia a dia, embora continuasse movido pela descrença e tomado de imensa curiosidade por tudo o que experimentava naqueles dias.
Já de volta ao Rio de Janeiro, depois de muito tempo, reviu o exemplar de O Livro dos Espíritos que recebera de Fonseca, com a recomendação de que conhecesse um pouco mais do Espiritismo.
Viriato passou pelo volume. Deu dois passos. Voltou e abriu o livro ao acaso: “É sempre sob a forma de acaso que Deus se apresenta aos incrédulos”, argumenta. Abriu justamente numa das páginas de mais alto interesse, aquela em que Kardec trata da volta à vida espiritual, da separação da alma e do corpo, da perturbação que acomete certos espíritos ao deixarem a existência terrena.
O escritor se põe a ler com intensidade, com a respiração opressa. Em literatura, sempre foram de seu gosto as páginas fortes, de cunho trágico, que se destacavam pela originalidade e pela extravagância. Mas página nenhuma o sacudira tanto como aquela. Nenhum livro o havia deixado tão forte sulco no seu espírito como aquele de Allan Kardec.
Ateu até os 42 anos, após ter lido O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, Viriato Correia passou a ter uma nova visão sobre a vida humana e sua imortalidade. Agora, sim, compreendia Deus em sua onipotência, bondade e misericórdia, “o Deus que perdoa e consola, que não tem decisões implacáveis, que não tem infernos para penas eternas”.
E arremata, logo abaixo: “Hoje, considerando as coisas, meditando sobre o tempo que passou, é que vejo o que havia de ridículo e de caricato no materialismo que me encheu tão longo período de vida”. O Espiritismo consola, esclarece e cura nossas mazelas físicas e espirituais.
“O acaso sabia que, antes de tudo, devia inflamar-me a centelha da curiosidade, sabia que a minha curiosidade em leitura se inflama facilmente pelo ineditismo e pela novidade”, analisa o escritor. E completa: “Os fenômenos das sessões práticas são às vezes de tal maneira impressionantes, que solidificam a convicção de que existe uma outra vida que não está vida tangível em que nos arrastamos. Mas o que me fascinou foi a doutrina, pela magnitude de sua beleza, pela sua suprema doçura tonificadora das almas, pelo bálsamo infinito que derrama sobre as dores.”
Viriato Correia faleceu no Rio de Janeiro em 10 de abril de 1967, aos 83 anos, tendo sido sepultado no Mausoléu dos Imortais do Cemitério São Joao Batista.
Frases de Viriato Correia
A seguir, vamos ler algumas de suas frases, retiradas de seu discurso de posse na ABL:
“A maioria dos homens deixa-se vencer pela vida.”
“O amor de quem muito espera é um amor de altas calorias, que se refinou à prova de fogo.”
“Até a morte deve escolher o momento em que não se torne visita incômoda.”
“A morte gosta de encontrar a gente com as malas prontas para a grande viagem.”
“A gota não tem prestígio nem mesmo quando é de veneno.”
“A felicidade não é nascer Príncipe de Gales; a felicidade é ser hábil na escolha de uma grande época para nascer.”
Fontes
ABL - Biografia - https://www.academia.org.br/academicos/viriato-correia/biografia
ABL - Discurso de posse. Disponível em: https://www.academia.org.br/academicos/viriato-correia/discurso-de-posse
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