Retorno às fontes
Queridos amigos e amigas, leitores do nosso jornal O Imortal. Gosto de dividir com vocês as coisas que me acontecem e, sempre que possível, espalhar o bem e o belo para a humanidade.
Recentemente, no mês de junho, publiquei em português um novo livro, que muito em breve deverá também chegar aos leitores de língua inglesa. Seu título é Retorno às Fontes — Reflexões à luz da obra de Allan Kardec.
E por que “retorno às fontes”?
Porque, algumas vezes, no Movimento Espírita, vamos estabelecendo aquilo que “pode” ou “não pode” ser feito sem antes nos perguntarmos: mas o que nos ensina Kardec?
E, quando deixamos de consultar as fontes, corremos o risco de nos perder pelo caminho.
Temos diante de nós um patrimônio extraordinário: O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns, O Evangelho segundo o Espiritismo, O Céu e o Inferno, A Gênese, O que é o Espiritismo, Obras Póstumas e a Revista Espírita. São obras que nos permitem acompanhar o pensamento, a pesquisa e, sobretudo, o método desenvolvido por Allan Kardec.
Foi com esse espírito que nasceu Retorno às Fontes.
Não escrevi o livro para apresentar aquilo que eu acho ou deixo de achar. Procurei retornar aos textos de Kardec e trazer ao leitor as referências que nos permitem estudar, observar, comparar e, principalmente, pensar.
Talvez uma das perguntas mais interessantes que o livro possa despertar em quem o lê seja simplesmente esta:
“Eu já conhecia isso?”
No capítulo 6, por exemplo, abordo O Livro dos Médiuns e a prática responsável da mediunidade e relato uma experiência iniciada por nós no final de 2019. Começamos um projeto de estudo e preparação que, logo depois, precisou enfrentar uma realidade que ninguém esperava: a pandemia.
As atividades mediúnicas presenciais foram interrompidas, mas o estudo não poderia parar.
Desenvolvemos, então, um curso on-line de um ano, fundamentado em O Livro dos Médiuns e pensado também dentro da realidade europeia, onde as distâncias, as culturas e a própria presença dos grupos espíritas são muito diferentes da realidade que encontramos no Brasil.
Mais tarde, soubemos que experiências semelhantes também começaram a surgir em outros lugares. E isso me fez pensar: quem pode deter o vento?
As boas inspirações atravessam fronteiras.
Hoje vemos estudos e experiências acontecendo na França, na Alemanha e em outros locais, buscando sempre aprimoramento, seriedade e responsabilidade.
Isso não significa, naturalmente, incentivar uma prática mediúnica improvisada ou irrefletida, nem substituir as reuniões presenciais onde elas podem existir de maneira segura e responsável. Significa apenas compreender também a realidade de regiões onde não existem grupos espíritas próximos.
Aqui, nas terras de Kardec, na Europa, precisamos encontrar caminhos adequados à nossa própria realidade.
E é justamente aí que retornar às fontes se torna ainda mais importante.
Porque Kardec, em vez de simplesmente proibir, preferia ensinar.
Em vez de estimular o medo, oferecia critérios de análise.
Em vez de criar restrições genéricas, construiu um método de investigação espírita.
Foi essa metodologia que permitiu ao Espiritismo desenvolver-se como uma doutrina de observação, fundada na razão, na experiência e na concordância dos ensinos dos Espíritos.
Sob essa perspectiva, talvez a pergunta mais importante não seja simplesmente se determinada manifestação mediúnica ou determinado projeto “pode” ou “não pode” existir.
As perguntas deveriam ser outras:
É sério?
Possui finalidade moral?
Está em harmonia com os princípios do Evangelho?
Foi examinado com discernimento?
São perguntas que nos convidam à responsabilidade, e não à precipitação.
Talvez esteja aí um dos grandes legados de O Livro dos Médiuns: não oferecer respostas prontas para todas as situações que a humanidade ainda encontraria, mas ensinar-nos um método para pensar, observar, analisar e concluir.
E esse método continua sendo um dos grandes patrimônios da Doutrina Espírita.
Por isso, quando falo em Retorno às Fontes, não proponho um retorno ao passado.
Muito pelo contrário.
Retornar às fontes é também preparar-nos para o futuro.
É voltar a Kardec para reencontrar a liberdade responsável de investigar, a coragem de estudar, a humildade de perguntar e o discernimento necessário para que o Espiritismo continue caminhando sem perder as suas raízes.
Não existe, portanto, qualquer incentivo à prática irrefletida da mediunidade. Existe, sim, um permanente convite ao estudo, à prudência e à responsabilidade.
Meus queridos amigos e amigas, que Deus abençoe a todos nós e que possamos continuar estudando Kardec, mas também estudando tudo aquilo de belo e profundo que recebemos depois dele — especialmente no Brasil, com contribuições tão preciosas como as de Chico Xavier, Joanna de Ângelis e tantos outros que enriqueceram o nosso caminho.
Que saibamos não apenas estudar, mas colocar em prática aquilo que aprendemos.
E, acima de tudo, que aprendamos a ouvir mais, a observar com carinho, a compreender melhor e a julgar menos.
Talvez assim possamos caminhar juntos, com mais fraternidade, levando o Espiritismo não apenas em nossos livros e palavras, mas principalmente em nossas atitudes e em nossos corações para todas as terras de além-mar.
Que Deus abençoe a todos.
Elsa Rossi, escritora espírita radicada no Reino Unido, é presidente do Allan Kardec Study Group-Centre for Spiritist Teachings e da União das Sociedades Espíritas Britânicas – BUSS.

Comentário