Quando a prece infantil atravessa fronteiras
Há momentos na vida em que Deus nos concede pequenas alegrias que, embora discretas, permanecem gravadas para sempre em nossa alma. Não chegam envolvidas por aplausos nem acompanhadas de grandes acontecimentos. Chegam em silêncio, como uma brisa suave, e nos lembram de que nenhum esforço realizado com amor se perde no tempo.
Foi exatamente assim que me senti ao receber, há poucos dias, um exemplar da histórica Revue Spirite, a revista fundada por Allan Kardec em janeiro de 1858 e que continua, até hoje, difundindo o pensamento espírita para leitores de diversas partes do mundo.
Segurei a revista com emoção. Afinal, tratava-se de uma publicação que acompanha a história do Espiritismo desde os seus primeiros passos. Quantos estudiosos, pesquisadores e trabalhadores da Doutrina já encontraram inspiração em suas páginas! Quantas reflexões ali nasceram para depois alcançarem tantos corações!
Ao folheá-la lentamente, fui surpreendida por uma alegria inesperada. Ali estava o anúncio da edição francesa do meu pequeno livro de preces para crianças.
Por alguns instantes, permaneci olhando aquela página, sem conseguir continuar a leitura.
Meu pensamento viajou no tempo.
Lembrei-me do dia em que escrevi aquelas primeiras palavras. Não pensava em traduções, nem em edições internacionais. Apenas desejava oferecer às crianças um caminho simples para descobrir que orar é conversar com Deus. Que a oração não precisa ser complicada. Que Jesus escuta a linguagem sincera do coração infantil.
Curiosamente, o livro não nasceu em português. Sua primeira edição foi publicada em espanhol, no Paraguai, graças ao carinho e à confiança da Editora Aramy, que também criou, com sensibilidade e beleza, todas as ilustrações que dão vida às suas páginas. Foi ali que essa pequena obra iniciou a sua caminhada.
Depois vieram as edições em inglês, em português e, agora, em francês.
São quatro idiomas. Mas uma única mensagem: a linguagem do amor.
Vivendo há tantos anos na Europa, aprendi que as culturas possuem riquezas extraordinárias. Mudam os costumes, mudam os alimentos, mudam as tradições, muda a forma de cumprimentar as pessoas. Mudam até as palavras utilizadas para expressar os sentimentos.
Mas existe algo que permanece igual em qualquer lugar do mundo.
Toda criança sente necessidade de ser amada.
Toda criança precisa sentir segurança.
Toda criança procura esperança.
Toda criança é capaz de elevar um pensamento a Deus.
Talvez seja justamente por isso que a oração nunca envelhece.
Ela atravessa oceanos sem precisar de passaporte.
Cruza fronteiras sem enfrentar alfândegas.
Chega aos lares mais simples e também aos mais sofisticados, com a mesma delicadeza.
Quando uma criança fecha os olhos para agradecer pelo alimento, pedir proteção aos pais ou conversar com Jesus antes de dormir, o Céu compreende cada palavra, qualquer que seja o idioma utilizado.
Os Espíritos Superiores não escutam a pronúncia. Escutam o sentimento.
Allan Kardec ensinou-nos que a verdadeira prece é aquela que nasce da sinceridade. Deus não se impressiona com discursos longos nem com palavras difíceis. A oração verdadeira é sempre a que brota do coração.
Talvez por isso eu tenha me emocionado tanto ao imaginar esse pequeno livro chegando às mãos de crianças francesas. Quem sabe uma mãe o leia antes de colocar o filho para dormir? Quem sabe um avô o utilize para ensinar o neto a fazer sua primeira oração? Quem sabe uma professora o apresente em uma aula de evangelização? Quem poderá medir o alcance de uma simples prece?
Nós nunca saberemos. E talvez essa seja uma das maiores belezas do trabalho no bem.
Semeamos. Mas não controlamos a colheita. Espalhamos sementes. É Deus quem prepara a primavera.
Vivemos dias em que tantas notícias falam de guerras, violência, intolerância e divisões. Em meio a esse cenário, conforta-me pensar que ainda existem livros destinados às crianças, ensinando-lhes a confiar em Deus, a agradecer, a perdoar e a cultivar a paz.
A transformação da Humanidade não começará nos grandes discursos.
Começará, talvez, quando uma criança aprender que pode conversar com Jesus como conversa com um amigo.
Ao fechar a revista, fiz uma prece silenciosa. Não agradeci apenas pela tradução francesa.
Agradeci pelo privilégio de servir.
Pedi a Jesus que este pequeno livro jamais seja motivo de vaidade para quem o escreveu, mas instrumento de consolo para quem o ler. Que cada exemplar encontre exatamente a criança que dele necessita. Que nenhuma página seja apenas papel impresso, mas uma oportunidade de aproximar um pequeno coração do amor de Deus.
Porque os livros também viajam como missionários. Entram em casas que jamais conheceremos. Sentam-se ao lado de crianças que nunca veremos. Levam esperança sem fazer ruído. E continuam falando de Deus muito depois que o autor já se calou.
Então compreendi que aquele anúncio na Revue Spirite significava muito mais do que a divulgação de um livro.
Era um convite para continuar semeando. Com humildade. Com perseverança.
E, sobretudo, com a certeza de que toda obra realizada por amor encontra, no tempo de Deus, o seu destino, seja aqui, em terras britânicas, ou além-mar.
Elsa Rossi, escritora espírita radicada no Reino Unido, é presidente do Allan Kardec Study Group-Centre for Spiritist Teachings e da União das Sociedades Espíritas Britânicas – BUSS.

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