14ª Jornada da AME-SP reúne instituições espíritas em torno da saúde e do cuidado integral

Encontro realizado em São Paulo discutiu como ciência e espiritualidade podem dialogar na atenção à saúde

A união de diferentes instituições espíritas em torno de um mesmo propósito — ampliar o cuidado em saúde, respeitando o conhecimento científico, a segurança dos tratamentos e a autonomia do paciente — marcou a 14ª Jornada da Associação Médico-Espírita de São Paulo (AME-SP), realizada nos dias 19 e 20 de setembro, em conjunto com o 14º CondAME, na capital paulista.

Com o tema “A Dimensão Espiritual da Medicina – da Evidência à Prática”, o encontro reuniu médicos, psicólogos, enfermeiros, pesquisadores, estudantes e representantes de instituições do Movimento Espírita. A programação marcou também a inauguração da nova sede da AME-Brasil, no Butantã, 31 anos após a criação da entidade.

Ao longo dos dois dias, foram discutidos temas como cuidado integral, saúde mental, práticas assistenciais, experiências de fim de vida e quase-morte, comunicação após a morte, alegadas memórias de vidas passadas, saúde de cuidadores, crescimento pós-traumático, esperança, gratidão e florescimento humano.

O paciente para além da doença

Na abertura, o presidente da AME-SP, Marcus R. C. Ribeiro, destacou a necessidade de aproximar o conhecimento produzido sobre espiritualidade e saúde da prática cotidiana dos profissionais.

O médico e escritor Décio Iandoli Jr. defendeu uma assistência que considere o ser humano em suas diferentes dimensões. Segundo ele, os avanços da Medicina ampliaram a expectativa de vida e permitiram tratar doenças antes fatais, mas a especialização pode levar à redução do paciente ao órgão ou ao diagnóstico.

Para Iandoli, aspectos biológicos, psíquicos, sociais, ambientais e espirituais podem interferir tanto no adoecimento quanto na resposta ao tratamento. Nesse contexto, a escuta e a anamnese espiritual podem contribuir para uma melhor compreensão do paciente, desde que suas crenças sejam respeitadas e o profissional não imponha suas próprias convicções.

Experiências de cuidado

A Jornada apresentou experiências desenvolvidas por diferentes instituições espíritas. O Grupo Espírita Batuíra, por exemplo, mantém um Lar Transitório destinado a pessoas em situação de exclusão social que deixam o hospital, mas ainda necessitam de recuperação e acompanhamento. Mais de 1,8 mil pessoas já passaram pelo serviço. A instituição também oferece atendimento multiprofissional a pessoas neurodivergentes e suas famílias.

A Federação Espírita do Estado de São Paulo (FEESP) apresentou suas ações voltadas a pessoas com ansiedade, depressão, dependências, compulsões e situações de luto, ressaltando que o cuidado espiritual é complementar e não substitui o tratamento médico ou de outros profissionais da saúde.

O Instituto Espírita de Educação (IEE) mostrou seu trabalho de atendimento fraterno, baseado na escuta e no acolhimento, além do projeto Juntos pelo Capão, voltado a crianças e jovens. Já a Seara Bendita chamou atenção para a responsabilidade das próprias instituições com a saúde e a segurança de funcionários, voluntários, alunos e assistidos.

O Instituto de Saúde do Grupo Espírita Cairbar Schutel apresentou os resultados de sua atuação, que, entre fevereiro e agosto deste ano, realizou mais de 100 atendimentos on-line e recebeu presencialmente 280 pessoas.

As ações também alcançam comunidades externas. Na Terra Prometida, no extremo sul da capital paulista, parceria entre a AME-SP e a Fraternidade sem Fronteiras reuniu profissionais da Saúde e voluntários para atendimento e acolhimento. Na Amazônia, expedições em barco-ambulatório da Universidade do Amor oferecem assistência médica e odontológica a populações com acesso limitado aos serviços de saúde.

Experiências incomuns e os limites da pesquisa

Outro eixo do encontro foi a investigação científica de experiências humanas ainda cercadas de perguntas. O médico e pesquisador Eric V. Ávila Pires apresentou estudos sobre alegadas memórias de vidas passadas em crianças. Segundo ele, o foco clínico deve ser compreender o impacto dessas experiências sobre a criança e a família, sem assumir previamente que os relatos sejam verdadeiros ou falsos e sem interpretá-los automaticamente como sinais de transtorno psiquiátrico.

A psiquiatra Marianna de Abreu Costa abordou pesquisas sobre experiências percebidas de comunicação com pessoas falecidas e suas possíveis repercussões no luto. Ressaltou que experiências espirituais ou consideradas incomuns podem ocorrer em pessoas saudáveis e, isoladamente, não permitem estabelecer um diagnóstico psiquiátrico.

Também foram discutidas experiências de quase-morte, sonhos e visões no fim da vida e registros de atividade cerebral próximos à morte. O psiquiatra Henrique G. Ribeiro destacou os limites atuais do conhecimento, observando que a identificação de atividade elétrica organizada no cérebro durante o processo de morte não permite concluir, por si só, que o paciente estivesse consciente naquele momento.

Quem cuida também precisa de cuidado

A saúde de familiares, profissionais e voluntários responsáveis pelo cuidado de outras pessoas também recebeu atenção. Exaustão, privação de sono, ansiedade, culpa, isolamento e abandono de atividades pessoais foram apontados como sinais de sobrecarga.

Ao relatar a experiência de cuidar da própria mãe, Elizabete T. do Amaral ressaltou a necessidade de estabelecer limites e dividir responsabilidades. A psicóloga Giovana T. Campos, por sua vez, lembrou que cuidar de alguém pode significar perdas de liberdade, rotina, projetos e convívio social, mas “cuidar de alguém não significa desaparecer”.

Esperança, gratidão e florescimento

A programação abordou ainda crescimento pós-traumático, florescimento humano, gratidão, esperança, sentido e propósito, procurando distinguir esses conceitos de uma visão baseada simplesmente no “pensamento positivo”.

Para Marcus Ribeiro, crescer depois de uma experiência difícil não significa considerar o sofrimento necessário ou desejável. O Programa Florescer, apresentado pela pesquisadora Juliane P. B. Gonçalves, trabalha temas como bondade, espiritualidade, propósito, compaixão e perdão. Em um dos projetos, participantes com sintomas depressivos apresentaram melhora em indicadores de sofrimento psíquico, qualidade de vida e florescimento.

Pesquisas sobre gratidão e plasticidade cerebral e sobre a chamada Teoria da Esperança também foram apresentadas. Nesta última, a esperança envolve objetivos, caminhos possíveis para alcançá-los e motivação para seguir adiante.

Ciência e espiritualidade em diálogo

Ao final dos dois dias, uma ideia conectou os diferentes temas e experiências apresentados: incorporar a espiritualidade ao cuidado não significa substituir ciência, medicamentos, exames ou tratamentos. Significa ampliar a compreensão sobre quem está diante do profissional, considerando também suas relações, valores, crenças, medos, sofrimento, sentido de vida e formas de enfrentamento.

A diversidade das experiências apresentadas por AMEs, instituições espíritas, projetos assistenciais e pesquisadores mostrou que esse cuidado pode assumir diferentes formas. A 14ª Jornada da AME-SP reforçou, assim, a possibilidade de aproximação entre ciência, espiritualidade, escuta e ação, tendo a pessoa como centro do cuidado.



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