"A vida não se interrompe e amor não acaba"

“Sou muito mais que as pedras que carrego. Na dúvida, que eu possa acreditar e que nada dói para sempre.”

O mês de setembro, popularmente chamado de setembro amarelo, como sabemos, faz alusão à diversas campanhas de prevenção contra o suicídio, um ato tão triste e que a cada ano aumenta em nosso país. “Existimos numa civilização que desvaloriza e nega a vida, que tenta mais controlá-la, manipulá-la e enrijecê-la do que compreendê-la e ajudá-la a florescer. A vida é movimento, descoberta, instabilidade, incerteza, vulnerabilidade e não aprendemos a lidar com isso. Nossa sociedade nos ensina a menosprezar e desvalorizar as emoções e os sentimentos, a reprimir o que temos de mais humano, aprendendo a atuar e interagir de maneira "desumana" com nós mesmos e entre nós. Não sabemos lidar com o sofrimento psíquico natural, que faz parte da natureza humana e da vida, e medicalizamos nossas angústias, tentando suprimí-las ou represá-las.”

A Organização Mundial de Saúde (OMS) considera a depressão o mal do século. Atualmente, mais de 300 milhões de pessoas sofrem com depressão e ela é considerada uma das doenças mais incapacitantes do mundo, sendo que anualmente mais de 800 mil morrem por suicídio em decorrência da doença. Estima-se que no Brasil são 12 milhões de pessoas em depressão (uma a cada 17 pessoas, aproximadamente). “O suicídio é um problema de saúde pública e uma das principais causas de morte no mundo: a cada 40 segundos uma pessoa comete suicídio. Numa civilização onde os sentimentos (especialmente os de angústia, tristeza, medo e solidão) não têm espaço, a tendência é ignorá-los até que, de tanto acúmulo, eles explodem em inúmeros transtornos mentais e emocionais: ansiedade, estresse, depressão etc. A sensação de falta de sentido, a desesperança e uma visão de futuro vazio, sem perspectivas, se tornam companheiras constantes. Mas esses são assuntos tabu, tratados com preconceito e ignorados pelas famílias e pela sociedade em geral. Pedir ajuda é sinônimo de fraqueza, principalmente para homens.”

E foi por estes e tantos outros motivos que permeiam as causas que despertam a vontade de ceifar a própria vida, que jovens e influencers digitais espíritas espalhados pelo Brasil se uniram para organizar o 2º Encontro Fraterno Virtual de Mocidades, que teve sua primeira edição em julho e na ocasião preparamos uma matéria em que o leitor pode acessar clicando aqui.

Nesta segunda edição, nós d’O Imortal fomos convidados à participar da organização e, diferente da primeira, o evento realizou-se exclusivamente pela plataforma do instagram, uma das redes sociais mais utilizadas no Brasil e no Mundo para transmissão de Lives. Os jovens envolvidos dividiram-se em equipes como Doutrinária, Artística e Marketing para que o escopo do evento fosse desenhado. No início, sem muito saber qual tema seria tratado, logo surgiu a intuição de trabalhar assuntos relacionados à valorização da vida e da prevenção do suicídio, mas com muita responsabilidade.

Equipes dividas, fazíamos reuniões semanais de forma online, buscando entender como contribuiríamos com este tema, o suicídio. O desejo era que deveríamos tratar sem pré-conceito, sem julgamentos, de forma leve, acolhedora e com muito amor. Reunimo-nos, além de nós estudantes e aprendizes da doutrina e da vida, com profissionais da saúde em busca de entendermos como esses irmãos e irmãs pensam quando cometem o suicídio na busca de uma solução para seus problemas. Queríamos conhecer como deveríamos nos comunicar, ou melhor, como abordar este tema sem afastar àqueles que precisam tanto deste amparo, e sim acolhê-los em nosso seio. Por fim, quase três meses de organização, o evento foi estruturado, alcançando seus objetivos:

- Despertar a consciência do Ser eterno que somos;
- Permitir o acolhimento de nossos próprios sentimentos e de nosso próximo;
- Conscientizar a importância de falarmos sobre a valorização da vida.

Foi então, que nos dias 26 e 27 de setembro de 2020 realizou-se a segunda edição do evento, em formato inovador. Mais de 120 pessoas durante os dois dias de encontro, acompanharam simultaneamente nossa programação. No primeiro dia, a programação ocorreu pelo perfil do instagram do @coachingespirita tendo como apresentador Júlio Sena, que por uma hora e meia trouxe atrações artísticas como Vitor Tavares e Rafaela Miranda da Mocidade Espírita Paulo de Tarso de Uberlândia/MG (@mept.udi) e Kelly Dantas do Grupo Harena de Natal/RN (@grupoharena). A palestra da noite ficou à cargo de Cauê Sanches, evangelizador da Mocidade Espírita Meimei de Guaxupé/MG (@mocidadeguaxupe) com o tema “Despertar – Dias melhores virão quando não tivermos mais medo de olharmos para nós mesmos”.

Já no segundo dia, a programação foi mais extensa, iniciando às 14h e finalizando às 18h. O evento contou com diversos apresentadores: Gabriella Mulè @cientistaespirita, Valéria Castro @otimismo_espirita e Marcel Gonçalves @jornaloimortal_oficial, que intercalavam-se para conduzir o evento e trazer os convidados para a programação ao vivo. Durante à tarde, contamos com a presença artística da Equipe Um Som (@equipeumsom), Camilla de Sá (@camilladesa), Aldo Eurípedes (@aldo.euripedes), Cartas de Bordeaux (@cartasdebordeaux) e Stefhanie do Projeto Carrossel (@projetocarrosselsp). As palestras, foram duas, sendo a primeira com Uriel Santos (@espiritismo24h) sob o tema “Ressignificar” e Deuza Nogueira (@deuzamariadantas) abordando “Esperança”.

“De modo geral, são os suicidas que mais sofrem após a morte. É que quando chegam no mundo espiritual se dão conta de que não lograram o intento, que era pôr fim à vida. Seguem vivendo e percebem que aos problemas, dos quais desejavam fugir, outros se somam, pela falta de fé em Deus e pela rebeldia. Na morte natural os laços que unem o Espírito ao corpo são desatados lentamente, enquanto que pelo suicídio são violentamente rompidos, sem, contudo, permitir que o Espírito se liberte. Por esse motivo, não nos deixemos tentar pelo convite ao suicídio. Nunca valerá a pena. Antes, roguemos a Deus forças para suportar o fardo que carregamos.”

Cauê Sanchês, relembrou que, depois de tudo que passamos nos últimos meses a dúvida “ficou no ar”: será mesmo que melhoramos ou permanecemos com os mesmos hábitos? Já conhecemos nossos sentimentos? Qual o tamanho da nossa gratidão? Estas e outras questões foram tratadas com base nos estudos das obras de Joanna de Ângelis e Yvonne do Amaral Pereira, mentora do evento.

Anne da Equipe Um Som, através da música que nos apresentou, reforçou que “somos muito mais que as pedras que carregamos, bastamo-nos, na dúvida, acreditarmos e que nada dói para sempre. No desespero lembremo-nos que somos esperança.”  Uriel Santos, estudioso da Doutrina Espírita e criador do perfil @espiritismo24h no instagram, em sua palestra sobre ressignificação destacou com veemência que “todos nós temos dores, problemas, mas não podemos nos deixar abater com a desesperança, pois o mestre estará sempre conosco. Relembra ainda que o evangelho é o sol da imortalidade e que nas trevas, saibamos que somos bem aventurados, porque para os vencidos, Deus irá carrear benções de infinita bondade.”

Divaldo Pereira Franco em “Temas da vida e da morte”, insiste que devemos dialogar com bondade e paciência com as pessoas que tem propensão para o suicídio; sugerir-lhes dar-se um pouco mais de tempo, enquanto o problema altera a sua configuração; evitar oferecer bases ilusórias para esperanças fugazes que o tempo desmancha; estimular a valorização pessoal; acender uma luz no túnel do seu desespero, entre outros recursos, constituem terapia preventiva que se fortalecerá no exercício da oração, das leituras otimistas, espirituais, nos passos e no uso da água fluidificada.

“Gentileza, se não tomar cuidado, a gente lesa sim”, dizia Camila Sá em uma das músicas que cantou no encontro. Saibamos cuidar do outro assim como gostaríamos que alguém cuidasse de nós mesmos, afinal cada um de nós possuímos talentos que devemos usufruir deles durante nossa caminhada. Que sintamos, segundo Aldo Eurípedes, sentir a energia que nos move ao longo da escalada, esvaziando os ressentimentos e sentindo a felicidade que existe.

Na última palestra do dia, Deuza Nogueira falou de forma linda sobre a vida, destacando que “quando jovens, temos dificuldades para falarmos sobre nossos sentimentos. Sentimo-nos sozinho, pois é difícil se esquivar das pessoas que querem decidir por nós. Aproveitemos, pois, os recursos da vida material, mas com prudência, porque a vida não se interrompe e amor não acaba.”

Já na reta final, Marcel Gonçalves, este que vos escreve, encerrou o evento apresentando os destaques que pautaram cada momento de todo encontro. Antes da prece final, reproduzindo o texto Vem Jesus de Hugo Gonçalves, fundador deste jornal, declamou-se duas poesias, sendo que uma delas, escrita por Dias Rosa intitulada como Essencial, especialmente para o encontro.

Eis sua transcrição na íntegra:

A dor nos desvenda
Ou desvendamos a dor?
Tudo ao mesmo tempo
Em uma mistura tão cheia
De fragmentos

E visualizamos a frágil estrutura
De ser humano;
Mas também o universo tão vasto
Que é traçado para a emancipação
Dos planos.

A viagem é dura, árdua
Muitas das vezes, seca;
E o olho que umidece
Convida também para uma
Experiência de fluidez:

Rio
Como passagem
Como o soerguimento para além das miragens
Eu, rio, de encontro a margem

E vejo em mim
Junto a Deus
Sem medo da certeira estiagem;
Esta vastidão que corre,
Com a liberdade de se perceber
Potencialidade.

Agradeço, por fim, a oportunidade
De, em vida, contribuir para o crescimento,
Mostrando a graça da existência que
Só com a água
Move,
Edifica
E eleva.

Medra, na profundidade,
O tesouro latente:
Sei que sou decorrente
Dos esforços do todo.

Estou como instrumento
De percepção;
E no fraterno encontro
Vejo a lágrima cair
Como o limiar
Da mais ampla ação:
Transformar a dor em caminho para a redenção.

 

Nota do autor: os vídeos dos dois dia do evento serão unificados e disponibilizado no  canal do youtube Coaching Espírita do Julio Sena.



Comentário

0 Comentários